A Ocupação do Bico do Papagaio: Transformações e Conflitos ao Longo dos Séculos
A ocupação do Bico do Papagaio, região situada no norte do Brasil, percorreu um longo caminho, marcado por transformações intensas e conflitos ao longo dos séculos. O processo de colonização e exploração dessa área pode ser compreendido através de uma análise cronológica dos eventos mais significativos que moldaram o território e a vida de seus habitantes. O Bico do Papagaio está localizado entre os rios Araguaia, a oeste, e Tocantins, a leste, e é formado por 25 dos 139 municípios do estado.

- Período Pré-Colonial
Segundo a historiadora Kátia Maia Flores: “O chamado sertão do Paraupava, na região da confluência dos rios Tocantins e Araguaia, já era visitado desde os finais do século XVI, por portugueses, mamelucos, franceses e espanhóis, mas suas descrições são muitas vezes imprecisas, confusas ou lacunares.” A descoberta do Tocantins e sua penetração iniciaram-se no final do século XVI e intensificaram-se no seguinte, a partir da foz e da nascente. Os franceses, instalados no Maranhão, foram os primeiros a encontrar a foz junto ao Amazonas, onde, sob o comando de Charles Des Vaux, estabeleceram uma feitoria e batizaram o Tocantins, referência à tribo indígena das redondezas. Entre 1594 e 1615, realizaram várias expedições rio acima para sua exploração, fundando a vila de Cametá e atingindo, em 1613, a foz do Araguaia. (Flores, 2009, p. 45).
Antes da chegada dos colonizadores, a região do Bico do Papagaio era habitada principalmente por povos indígenas, como os Timbira e os Karajá. Esses grupos viviam de maneira tradicional, com pouco contato com outras culturas, devido ao isolamento geográfico da região. A baixa interferência externa preservou a organização social e cultural desses povos por muitos séculos.
- Século XIX – Primeiras Expedições e Exploração
No século XIX, a região começou a despertar o interesse de seringueiros, garimpeiros e pequenos agricultores, que passaram a explorar os recursos naturais da área, como a extração de borracha e ouro. No entanto, a ocupação foi ainda incipiente, sem uma presença efetiva e sistemática, caracterizando-se por uma exploração esporádica e sem grandes mudanças na estrutura territorial. A região também servia como passagem para grupos de navegação que a utilizavam como trajeto para Belém do Pará, contribuindo para o surgimento de várias cidades nesse processo, como Itaguatins e Araguatins, que tiveram grande importância na época da navegação.
- Década de 1940 – Políticas de Colonização e Primeiros Conflitos
A década de 1940 marcou o início de uma tentativa de colonização mais organizada, com o governo federal incentivando a abertura de estradas e a ocupação agrícola. Esse movimento atraiu migrantes de diversas partes do Brasil, resultando em disputas fundiárias com os povos indígenas e posseiros locais, já estabelecidos na região. O conflito entre os diferentes grupos intensificou-se à medida que a ocupação avançava.
- Década de 1960 – Crescimento da Ocupação e Intensificação dos Conflitos
Nos anos 1960, a fronteira agrícola na região expandiu-se, especialmente com o apoio de projetos governamentais voltados para o agronegócio e a exploração de terras para grandes propriedades rurais. O desmatamento acelerado e a ampliação da produção agrícola resultaram em um aumento significativo dos conflitos entre posseiros, grileiros e grandes fazendeiros, tornando o ambiente de disputas cada vez mais tenso. Analisando que a região possui uma grande diversidade ambiental, como floresta amazônica, cerrado, floresta estacional decidual e matas de cocais, porém também apresenta baixos índices de desenvolvimento humano, isso é histórico. Como desenvolver mantendo os povos tradicionais e originários, conservando o meio ambiente e melhorando a vida do povo, preservando as florestas em detrimento da miséria da população.
- Década de 1970 – Resistência Camponesa
A década de 1970 foi marcada pela repressão aos pequenos agricultores, que foram expulsos de suas terras, e pela intensificação da violência no campo. Milícias privadas e forças estatais passaram a atuar no controle da região, reforçando o domínio de grandes proprietários de terra. Durante as décadas de 1960 e 1970, as atenções do governo central, capitaneado por presidentes militares, concentraram-se no Bico do Papagaio, devido a interesses geopolíticos. Diante do contexto político, social e econômico, ocorreu uma conturbação na região, distinta dos conflitos ocorridos anteriormente, conhecida como Guerrilha do Araguaia. O Bico do Papagaio figurou como a região do país com mais mortes decorrentes de conflitos agrários, devido às diversas situações positivas e negativas que contribuíram para tal cenário. No entanto, também foi nesse período que a luta pela reforma agrária se fortaleceu, com movimentos sociais ganhando expressão e a resistência camponesa organizando-se para reivindicar seus direitos.

- Décadas de 1980 e 1990 – Mobilização Social
Em 1986, a morte do padre Josimo Morais Tavares, nas escadas do prédio da Mitra Diocesana de Imperatriz (MA), evidenciou a tensão na região do Bico do Papagaio, marcada pelos conflitos agrários entre os sem-terra e fazendeiros, na divisa dos estados do Pará, Maranhão e Tocantins.
Durante as décadas de 1980 e 1990, a região testemunhou uma intensificação das ocupações de terras, lideradas por movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A criação de assentamentos rurais e a implementação de políticas de regularização fundiária foram passos importantes para a resolução de conflitos, embora os desafios ainda persistissem. Nesse período, também houve um aumento da presença do Estado, que passou a atuar de forma mais eficaz na mediação dos conflitos fundiários.
- Século XXI – Consolidação dos Assentamentos e Novos Desafios
No século XXI, a agricultura familiar consolidou-se como uma atividade econômica significativa na região do Bico do Papagaio, impulsionada por políticas de desenvolvimento rural. Entretanto, as tensões fundiárias persistiram devido ao avanço do agronegócio, que pressionava pela expansão das terras agrícolas. As questões de sustentabilidade e preservação ambiental também ganharam destaque, dada a crescente preocupação com os impactos do desmatamento e da exploração dos recursos naturais.
A história da ocupação do Bico do Papagaio reflete as transformações pelas quais o Brasil passou, marcadas por disputas territoriais, resistência social e uma busca contínua por equilíbrio entre desenvolvimento e preservação.
A Reserva Extrativista do Extremo Norte do Tocantins (RESEX Extremo Norte) é uma unidade de conservação federal criada pelo Decreto nº 535, de 20 de maio de 1992, com o objetivo de proteger os meios de subsistência e a cultura das populações extrativistas tradicionais, garantindo o uso sustentável dos recursos naturais da região.
A Terra Indígena Apinajé, localizada no Tocantins, enfrenta conflitos relacionados à invasão de terras por madeireiros e caçadores ilegais, desmatamento para plantio de eucalipto e soja, além de projetos hidrelétricos, como a Usina Hidrelétrica (UHE) Serra Quebrada, que alteram o curso dos rios e afetam a pesca local. A construção da rodovia Transamazônica na década de 1970 dividiu o território original, deixando uma parte conhecida como “Apinayé II” sem demarcação oficial, apesar das contínuas reivindicações dos Apinajé. Essas ameaças comprometem a cultura, a subsistência e os direitos territoriais do povo Apinajé.
Além disso, a corrupção gerou tragédias, como o desabamento da ponte JK, que ligava Aguiarnópolis (TO) a Estreito (MA), na BR-226, na região do Bico do Papagaio, ocorrido em 22 de dezembro de 2024. O incidente provocou impactos na região, como congestionamentos e sobrecarga nas rodovias.
A região do Bico do Papagaio, no norte do Brasil, destaca-se pela relevância da agricultura familiar, impulsionada por políticas de desenvolvimento rural que visam fortalecer a economia local. Entretanto, é crucial equilibrar o avanço do agronegócio com a preservação ambiental, evitando visões que priorizem excessivamente o ambientalismo em detrimento do bem-estar humano. A criação de unidades de conservação, como a Reserva Extrativista do Extremo Norte do Tocantins, busca conciliar o uso sustentável dos recursos naturais com a melhoria das condições de vida das populações locais. Além disso, é fundamental combater a corrupção que prejudica a infraestrutura regional, como evidenciado pelo desabamento da ponte JK em 2024, garantindo investimentos que promovam o desenvolvimento econômico e social da região.
FLORES, Kátia Maia. Caminhos que andam: o rio Tocantins e a navegação fluvial nos sertões do Brasil. Goiânia: Ed. da UCG, 2009. Disponível em:
INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE – ICMBio. Reserva Extrativista do Extremo Norte do Tocantins. Disponível em:
SOUZA, Dayane Rouse Neves. Transformações na vida das populações tradicionais a partir da criação da RESEX do Extremo Norte do Estado do Tocantins. 2015. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Geografia)
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