A crescente sofisticação das facções criminosas no Brasil transformou sua natureza. De meros grupos de tráfico, passaram a atuar como verdadeiros estados paralelos, controlando comunidades inteiras por meio do terror, da extorsão e da ideologia (HOFFMANN, 2025). Além disso, sua influência cultural por meio da música, especialmente o funk de apologia ao crime, revela um fenômeno híbrido que ultrapassa o mero crime comum, inserindo-se no campo das representações simbólicas que moldam comportamentos e identidades (HOFFMANN, 2025).

Nesse contexto, destaca-se o papel do funk proibidão, expressão musical que muitas vezes incorpora narrativas de exaltação ao crime, ao tráfico de drogas e à ostentação de riqueza obtida por meios ilícitos. Um caso emblemático é o do funkeiro MC Poze do Rodo, preso em maio de 2025 sob acusação de ligação com o Comando Vermelho. Conforme divulgado por veículos da imprensa internacional, Poze foi detido por, entre outras coisas, utilizar suas músicas e shows para enaltecer atividades criminosas e possivelmente financiar atividades da facção (NEW YORK POST, 2025).
“Brazilian rapper MC Poze do Rodo — a close pal of soccer star Neymar — was busted for allegedly using his music to promote the Red Command drug gang in Rio de Janeiro — which police say he also funded through his performances.” (NEW YORK POST, 2025).
O jornal relata que o rapper brasileiro MC Poze do Rodo, conhecido por sua amizade com o jogador Neymar, foi detido sob a suspeita de utilizar suas músicas para divulgar a facção criminosa Comando Vermelho no Rio de Janeiro, além de, conforme a polícia, financiar o grupo por meio de seus shows (NEW YORK POST, 2025).
Em uma de suas canções mais conhecidas, Poze canta: “Nós é Comando Vermelhão de natureza / A meta é voltar pro Rodo e voltar pro Batô”, fazendo referência direta ao domínio territorial do Comando Vermelho e reforçando uma identidade coletiva baseada na lógica da facção (NEW YORK POST, 2025, tradução nossa). A letra evidencia o que Coronel Mário Sérgio define como a “ideologia de facção”, um ethos de guerra construído em torno de valores de dominação, violência e pertencimento:
“O fuzil, depois que entrou para a cidade do Rio de Janeiro e foi parar na mão do traficante, […] promoveu algo que eu costumo chamar de uma ideologia de facção. É um conjunto de valores, de dominação e de ódio que envolve esses elementos e promove uma identidade coletiva entre um grupo de uma comunidade com outro de uma comunidade completamente diferente” (MÁRIO SÉRGIO, 2014).
Essa representação midiática do crime, muitas vezes mascarada de expressão cultural legítima, gera o que Hoffmann (2025) chama de “bandidolatria”, ao naturalizar e até romantizar figuras ligadas ao tráfico e à violência, reforçando um padrão estético — a “narcoestética” — que permeia a indústria cultural. A prisão de MC Poze do Rodo provocou reações divergentes. Enquanto setores da sociedade o defenderam sob a justificativa de que He only sings the reality of the favela.” (THE GUARDIAN, 2025), isto é, que ele só canta a realidade da favela. Já outros apontaram a grave responsabilidade social e simbólica de sua obra, que não apenas narra, mas celebra e, em certa medida, legitima o crime como horizonte de realização.
Sendo ele responsável por glorificar esses grupos armados e violentos, coautores de mortes como a de três crianças, a polícia afirma que o crime foi autorizado por Edgard Alves de Andrade, o Doca, e José Carlos dos Prazeres Silva, o Piranha, chefes do tráfico da comunidade controlada pelo Comando Vermelho. As crianças foram julgadas pelo “Tribunal do tráfico”. Segundo a polícia,
“um dos traficantes responsáveis pela morte dos três meninos de Belford Roxo, em 2020, foi preso hoje pela polícia. As crianças foram torturadas e mortas com autorização do tráfico da região após supostamente furtarem um passarinho” (UOL NOTÍCIAS, 2025).
Houve, de fato, uma divisão ideológica, com setores da esquerda brasileira e internacional afirmando que se tratava de um ataque à cultura da favela. Curiosamente, o Comando Vermelho (CV) teve sua origem em 1979, no presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande (RJ), fruto da convivência entre presos comuns e militantes de grupos armados que lutavam contra a ditadura militar. Por outro lado, setores da direita enfatizaram a importância da atuação das instituições no combate ao crime, defendendo que as forças de segurança devem continuar trabalhando para prender os criminosos.
Esse cenário mostra como a cultura do crime — especialmente a narcocultura — está integrada às dinâmicas territoriais e identitárias das periferias urbanas. Segundo Hoffmann (2025), “a cultura do crime opera como um mecanismo de projeção de discursos que visam legitimar e promover criminosos e o que eles representam”. Não se trata, portanto, apenas de expressões artísticas, mas de dispositivos estratégicos de influência, dominação e coesão comunitária em territórios marcados pelo abandono estatal. Já na obra história do Patrulhamento Tático no Brasil. – E a evolução da Força Tática da PM do estado do Tocantins:
“(..) Cultura do Crime, ou seja, todo o conhecimento, histórico e cultural baseado nas crenças, na arte, na moral, nas legislações que gera suas leis (positivada ou não), logo, quando tudo isso está atrelado ao crime, os costumes e todos os outros hábitos, podem se perder.
Exemplo: O funk que faz apologia ao crime e às drogas e invade não só os morros cariocas como boa parte do Brasil, contando o que os jovens daqueles locais vivem, seus hábitos e costumes, cotidiano de ausência estatal, sem referência familiar, sem presença dos adultos que, muitas das vezes, moram somente com a mãe que tem que trabalhar o dia inteiro, logo, terá o domínio do tráfico. Esses valores por essa cultura chegam até em locais que não vivem a mesma realidade pela arte do funk e de outros gêneros musicais e culturais, como uma cultura invasora e imperialista.” (CORDEIRO, 2025, p. 19-20).
O resultado final da Cultura do Crime é o colapso do Estado e a criação de um novo tipo de poder local, dominado por grupos criminosos que operam como organizações terroristas com ideologias próprias. Essas ideologias são reproduzidas e disseminadas por meio da arte local — que um dia foi representada pelo samba, pelo pagode e até mesmo por um funk voltado à diversão e à denúncia social — mas que, hoje, em grande parte, foi capturada por uma estética propagandista do crime. O funk, junto a outros gêneros culturais, tem sido instrumentalizado como ferramenta de apologia e propagação do crime e de consolidação simbólica do poder das facções. Essa cultura, outrora restrita aos morros cariocas, já ultrapassou as fronteiras das favelas e alcançou até mesmo os espaços da política institucional.
Referências
BRASIL. Lei nº 13.260, de 16 de março de 2016. Regulamenta o disposto no inciso XLIII do art. 5º da Constituição Federal, dispondo sobre o crime de terrorismo e trata de investigações e procedimentos judiciais. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 153, n. 52, p. 1, 17 mar. 2016.
CANO, Ignácio; DUARTE, Thais. No sapatinho: a evolução das milícias no Rio de Janeiro (2008–2011). Rio de Janeiro: LAV/UERJ, 2012.
CORDEIRO, Wanderson Ferreira. Patrulhamento tático no Brasil: a evolução da Força Tática da Polícia Militar do Estado do Tocantins [livro eletrônico]. Palmas: Contteudo, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.8338639. Acesso em: 03 jun. 2025. ISBN 978-65-982429-2-3.
FELTRAN, Gabriel. O corpo como capital: sociologia do crime e das formas de vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
HOFFMANN, Erich Nelson Cardoso. A cultura do crime: uma análise crítica das manifestações culturais ligadas ao narcotráfico e às facções. São Paulo: PMESP, 2025.
MARIO SÉRGIO. O fuzil cria valores do ódio, diz comandante da PM. Extra, Rio de Janeiro, 31 maio 2014. Disponível em: https://extra.globo.com/casos-de-policia/o-fuzil-cria-valores-do-odio-diz-comandante-da-pm-377999.html. Acesso em: 31 maio 2024.
MATTOS, André de Souza. Terrorismo e crime organizado: convergências e lacunas legais no Brasil. Revista Brasileira de Segurança Pública, São Paulo, v. 13, n. 2, p. 14–30, 2019.
MISSE, Michel. Malandros, marginais e vagabundos: a acumulação social da violência no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UFRJ, 2006.
NEW YORK POST. Brazilian singer who is pals with Neymar busted for alleged ties to gang he glorified in songs. New York Post, New York, 30 maio 2025. Disponível em: https://nypost.com/2025/05/30/world-news/brazilian-singer-who-is-pals-with-neymar-busted-for-alleged-ties-to-gang-he-glorified-in-songs. Acesso em: 03 jun. 2025.
THE GUARDIAN. Brazil funk star MC Poze arrested over alleged gang links, sparking free speech debate. The Guardian, London, 01 jun. 2025. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2025/jun/01/brazil-outrage-funk-singer-arrest. Acesso em: 03 jun. 2025.
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