Os povos originários se diferenciam dos conceitos de povos e comunidades tradicionais. Segundo Urquiza, a principal diferença é que os povos indígenas remetem a uma ancestralidade anterior à colonização, enquanto os demais povos e comunidades tradicionais não necessariamente possuem essa característica. São listados 27 povos e comunidades tradicionais no Brasil, como quilombolas, ribeirinhos e ciganos.
Uma curiosidade é que o conceito de povos tradicionais também engloba os povos originários, ou seja, os indígenas também são considerados um povo tradicional.
Troncos Linguísticos e Grupos Indígenas

No Brasil, o tronco linguístico Tupi compreende dez famílias distribuídas por nosso território, dividindo-se em oito subgrupos. Já o tronco linguístico Macro-Jê abrange doze famílias. Entre os povos que pertencem a esse tronco linguístico estão os Karajá, Javaé e Xambioá, que se autodenominam Iny (ou Inã). Esses povos falam a mesma língua, pertencem à família Karajá e têm o idioma Karajá.
Os Karajá, Javaé e Xambioá migraram do norte mantendo suas aldeias separadas devido aos conflitos com os não-índios. Os Karajá, por exemplo, são conhecidos principalmente por suas habilidades como pescadores e coletores. Segundo Darcy Ribeiro, esses grupos migraram constantemente até chegarem à Ilha do Bananal, onde vivem atualmente.
Atualmente, há cerca de 1.600 Karajá vivendo em oito aldeias, enquanto 849 Javaé habitam nove aldeias às margens do rio Javaé. Os Xambioá, conhecidos por seu nome autodenominado Hirarumarandu, ou “Karajá de baixo”, vivem em duas aldeias com uma população de 182 pessoas, localizadas próximas às cidades de Santa Fé.
A festa do Hetoroky, que marca a iniciação dos meninos para a fase adulta, reúne famílias Karajá de aldeias distantes. Durante essa celebração, realizam-se danças, lutas e oferece-se comida farta, mantendo uma forte ligação com as tradições e origens. Além disso, os Karajá têm uma rica tradição na arte da cerâmica. As mulheres oleiras produzem figuras de animais, representações do cotidiano e, especialmente, as bonecas ritxokô, que são comercializadas como artesanato.
Políticas Públicas para os Povos Indígenas
Atualmente, o Estado do Tocantins possui cerca de 20 mil pessoas autodeclaradas indígenas. O governo estadual trabalha na elaboração de políticas públicas específicas para essa população.
Conflitos com o Colonizador
No norte goiano, atualmente parte do Estado do Tocantins, os conflitos entre os indígenas e os colonizadores ocorreram principalmente no primeiro momento da colonização. Os primeiros registros textuais sobre os contatos entre os Xakriabá e os lusobrasileiros datam do final do século XVII, quando a região do médio rio São Francisco começou a ser ocupada por não-indígenas. Esse processo foi impulsionado pelo avanço da frente pastoril, que se expandia seguindo os cursos dos rios Itapicuru e São Francisco. Com o avanço das fazendas de gado, essa ocupação se estendeu por toda a Bahia, Piauí, Maranhão e Tocantins.
Conforme registrado por Santos (1994), Matias Cardoso foi um dos primeiros colonizadores a se estabelecer na área compreendida entre os atuais municípios de São Romão e Manga. Ele teria encontrado os Xakriabá, com quem entrou em confronto, dominando-os e utilizando-os como mão-de-obra escrava na abertura de fazendas e na fundação do arraial de Nossa Senhora da Conceição de Morrinhos.
Segundo Giraldin (2002), os registros indicam que, em Goiás, os Xakriabá estavam em conflitos bélicos com os conquistadores desde a chegada dos mineradores a Natividade (1734) e Arraias (1740). Esses indígenas, juntamente com os Akroá, dificultavam o trabalho dos mineradores no norte de Goiás, especialmente nos arraiais de Natividade, Terras Novas, Paranã e Remédios.
Todas as medidas adotadas pelo colonizador tinham como objetivo impedir que os indígenas se tornassem obstáculos à exploração da terra. No século XVIII, sob a administração do Marquês de Pombal, a política indigenista passou a ter novas diretrizes, preocupando-se em ensinar os costumes dos brancos e permitindo ao colonizador utilizar a mão de obra indígena, agora assalariada.
Origem do Nome do Estado de Goiás
O nome do Estado de Goiás tem origem na tribo indígena “guaiás”, que, por corruptela, se transformou em Goiás. A palavra “gwaya”, do tupi, significa “indivíduo igual, gente semelhante, da mesma raça” (GOIÁS, 2025).
Origem do Nome do Estado de Tocantins
A origem do nome Tocantins vem do termo tupi “tukã”, que significa “curió” (um tipo de pássaro) ou “passarinho”, e “tî”, que significa “rio”. Dessa forma, o nome “Tocantins” pode ser traduzido como “rio dos curiós” ou “rio dos passarinhos”.
O Estado de Tocantins recebeu esse nome devido ao rio Tocantins, que é um dos principais rios da região e atravessa grande parte do estado. Esse rio é de grande importância para a região norte do Brasil, servindo tanto como meio de transporte como recurso natural para a biodiversidade e as populações locais.
A Formação das Comunidades Quilombolas no Estado do Tocantins

Relatos de comunidades como Riachão, Mata Verde, Rio Novo, Rio Preto, Mumbuca, Carrapato, Formiga, Ambrósio e Povoado do Prata indicam que suas formações resultaram dessas migrações. Um exemplo é o relato de Maria Aparecida Ribeiro de Sousa, da comunidade Povoado do Prata, que menciona migrações vindas de Santa Rita de Cássia (BA) e do Piauí, e também do Maranhão. A senhora Aureliana Rodrigues de Sousa, conhecida como Mãe Preta, conta que seus pais, baiana e piauiense, chegaram ao Povoado do Prata em 1932, provenientes de Pequi para trabalhar na fazenda do tio-avô de seu pai.Ela relata que seus pais, já tendo vários filhos, chegaram ao Povoado do Prata em 1932, vindo de um lugar chamado Pequi, para “vaqueirar” na fazenda do tio-avô de seu pai (Almeida, Martins & Marin, 2016, p. 18).
As migrações que deram origem às comunidades quilombolas no Tocantins, conforme os relatos analisados, vieram principalmente dos estados da Bahia, Piauí, Pará e Maranhão. As migrações da Bahia e Piauí ocorreram em momentos diferentes, com algumas comunidades formadas na primeira metade do século XX e outras há mais de 150 anos. Já na região norte do Tocantins, as migrações provinham especialmente do Pará e Maranhão, também predominando na primeira metade do século XX. Essas migrações desempenharam papel fundamental na constituição das comunidades quilombolas, como as localizadas na região do Jalapão e no Bico do Papagaio.
Referências
ABREU, Capistrano de. Os Sertões de Dentro. 1963.
ALMEIDA, A.; MARTINS, F.; MARIN, M. História dos Quilombos no Tocantins. 2016.
CHAIM, J. História e Cultura dos Povos Indígenas no Brasil. 1983.
GIRALDIN, M. Conflitos Indígenas no Brasil Central. 2002.
GOIÁS. História. Disponível em: https://goias.gov.br/historia/. Acesso em: 26 fev. 2025.
PARENTE, T. G. Fundamentos Históricos do Estado do Tocantins. Goiânia: Ed. UFG, 1999.
SANTOS, M. A História dos Xakriabá no Brasil. 1994.
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