O Tocantins, até então visto como um estado pacato e focado na economia agropecuária, desponta também como um reduto sofisticado para esquemas de lavagem de capitais e ocultação de bens por organizações criminosas (Orcrim) nacionais, especialmente facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC), Amigos do Estado (ADE), e Comando Vermelho (CV). O panorama, investigado por órgãos de Segurança Pública, revela uma estrutura robusta que envolve fintechs, postos de combustíveis e propriedades rurais e urbanas. Plano financeiro com fintechs – “Financial technology” (tecnologia financeira) – empresas que utilizam tecnologia para oferecer serviços financeiros de forma inovadora e digital – e empresas de fachada.
Dados do Coaf e da Polícia apontam o surgimento de fintechs — especialmente ligadas a instituições como o 4TBank — operando com baixa transparência. No esquema, são usadas “empresas de fachada”, abertas com capital social mínimo, para movimentar e mascarar grandes quantias. Em Palmas, foi identificada a própria atuação do 4TBank, que movimentou cerca de R$ 8 bilhões entre 2019 e 2024 em favorecimento às facções PCC e Comando Vermelho.
Postos de combustíveis: farmácia do crime para lavagem de dinheiro
Postos em Gurupi, Araguaína e Palmas estão sob apuração por possíveis fraudes fiscais, notas frias e superfaturamento — camuflando grandes volumes de dinheiro em espécie. Com grande fluxo de caixa, controlam preços locais, amedrontam concorrentes e oferecem cobertura perfeita para a lavagem do crime organizado.
Terras e fazendas: base para ocultar patrimônio e logística do tráfico
Propriedades rurais e urbanas estão entre os principais veículos de ocultação. Em especial, as terras complexas de fiscalizar facilitam a compra por valores abaixo do mercado, sob nomes de laranjas. Lá, são instaladas pistas de pouso clandestinas para aviões que trazem cocaína e armas de fogo — um exemplo prático foi evidenciado na “Operação Serras Gerais”, da FICCO/TO. O Tocantins vem sendo utilizado como rota para o tráfico de drogas no modal aéreo desde o Narcoterrorista Colombiano Pablo Emilio Escobar Gaviria -Pablo Escobar, que antes de morrer fixou residência às margens do Rio Novo (Cachoeira da Velha) na região conhecida atualmente com Parque estadual do Jalapão.
Operação Asfixia: PCC e armas da Turquia
Em 4 de fevereiro de 2025, a Operação Asfixia visou o núcleo financeiro do PCC no estado. Foram cumpridos 17 mandados de prisão, 18 de busca e apreensão e 20 ordens de bloqueio de contas, que tinham R$ 20 milhões em movimentação nos últimos dois anos. A ação ocorreu em cidades como Palmas, Araguaína, Paraíso e Porto Nacional, incluindo mandados em SP. A polícia ainda apreendeu pistolas turcas usadas em homicídios, reforçando o uso das finanças ilícitas no financiamento da violência.
O papel do Tocantins no esquema nacional
Com infraestrutura ainda frágil para rastrear fluxos financeiros e fiscalização limitada no interior, o Tocantins assume um papel estratégico como “terra de ninguém” das Orcrim. A soma de fintechs pouco fiscalizadas, postos de gasolina com grande fluxo em movimentações, fazendas com pistas clandestinas e legislação branda forma uma rede que facilita desde o refinanciamento de drogas até a ocultação de fortunas.
Os desafios institucionais
Assim, o estado enfrenta uma corrida para fortalecer controles: aperfeiçoar a identificação de fintechs suspeitas, acompanhar passivos fiscais em postos, monitorar transferências de terrenos e oferecer estrutura investigativa às forças de segurança. Soma-se a isso a relevância da presença da FICCO/TO, Polícia Federal, Ministério Público, Polícia Civil e Polícia Militar em operações como a “Serras Gerais” e a “Asfixia”. A aposta é que, só com maior integração e tecnologia e uma legislação forte e aplicação exemplar de penas, será possível desmantelar o esquema e impedir o Tocantins de se firmar como base da lavagem de dinheiro no Brasil.
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